sábado, 10 de julho de 2010

Conto: Paixão, lições e dor (parte 3)

Depois de revirar muito na cama, me entreguei definitivamente à insônia. Olhei para o relógio e praguejei minha ansiedade. Quatro da manhã. Saberia que o sono viria na hora mais inoportuna, no trabalho. Dado por vencido, depois de revirar um pouco na minha cama a ponto de milagrosamente retirar o lençol e encontrá-lo depois embaixo da cama, fui matar meu tempo.

Questionei algumas coisas. Questionei o porquê de pessoas terem esse poder biológico sobre outras, indaguei o que via em Raquel para que ela me tirasse o sono, isso é incomum. Não consigo me lembrar de usar subterfúgios para dormir, e agora um simples telefonema, nem tão pessoal, havia alterado meu cronograma pessoal. Tentei não responder minhas dúvidas, não queria encarar a verdade, preferia entender que a janta havia pesado no estômago. Eu era bom em mentir para mim, e agora seria uma boa hora para me usar contra mim mesmo, era hora de fantasiar, era hora de ser quem eu queria ser, livre.

Saí do meu quarto, desci a escada e sentei-me no sofá de couro preto. Aquele couro parecia mais gelado que de costume, sugestivo. Hércules tinha permissão de entrar em casa enquanto houvesse pessoas acordadas, mas a noite ele tinha que dormir em sua casinha no fundo do quintal. Nessa hora ele percebeu que havia movimentação na sala, do lado de fora raspou a pata na porta pedindo para entrar. Foi bom, de fato era o que eu precisava, uma companhia calada. Abri a porta da sala, Hércules entrou abanando o rabo como uma hélice prestes a tomar altura, me deu duas ou três lambidas, sua maneira de dizer bom dia. Sentei-me no sofá, Hércules sentou-se ao meu lado, parecia entender minha necessidade pessoal de ser compreendido em silêncio e repousou sua cabeça no meu colo, olhando-me com olhos atentos, como se lendo meu pensamento, por um momento ri um pouco. O seu olho esquerdo era cercado pela mancha preta típica de um dálmata, aquele olhar penetrante o fazia ser digno de ser batizado novamente, talvez Freud. Voltei a pensar, e permiti que Hércules ouvisse meus pensamentos.

Ao pensar não levantei teses e possibilidades, apenas relembrei algo que tinha a intenção de esquecer, mas não consegui.

Lembrei daquele dia, o dia em que com ajuda de Clara havia prometido pra mim mesmo que nunca mais deixaria alguém fazer de minha vida algo pior. Clara me fez repetir “as pessoas entram em nossa vida para acrescentar, e se não fazem isso elas são prejudiciais, mesmo que não pareçam”. Foi um mantra pra mim, e me lembro de receber alguns e-mails de Clara que com um toque leve de humor me lembrava dessa máxima.

Continuei a lembrar, lembrei do término entre Raquel e eu, lembrei-me das causas e de como eu havia sido injusto comigo em pedir que ela partilhasse da vida dela em minha vida. Eu sabia que algo não corria bem, arrastamos um relacionamento por dias, ambos protelávamos o fim, na realidade eu acreditava que o tempo fosse curar algumas coisas, mas vi que o tempo está mais para um placebo, Raquel sabia que o tempo não era medicinal, e isso que acontece com quem usa placebo sabendo o que ele realmente é. Não funciona. O tempo só me desgastou mais.

Raquel estava cursando seu mestrado em comércio exterior, falava três idiomas, e estava no lugar certo. Porém lugares certos proporcionam pessoas aparentemente certas. Raquel levava sua vida profissional no topo de suas prioridades, e muitas vezes me confundia com um instrumento de trabalho. Não conseguia atender suas exigências administrativas em nossa relação, como a hora de falar algo ou calar-me. Ou ainda ter que descobrir o dia em que era pra eu ligar na madrugada para ela ser acordada como uma Julieta moderna. Não encarava nosso relacionamento como algo profissional, fatidicamente esse foi meu erro. Alguém soube suprir isso. Raquel não tentou me entender, não soube me entender como alguém diferente. Simplesmente eu não coube em seu molde, o molde que só ela cabia.

Raquel se apaixonou por outro homem que fiz questão de não saber seu nome, ele fazia mestrado com ela e pelo que entendi era um workaholic. Ela gostava de estudar e eu de caminhar de mãos dadas ostentando uma relação romântica e com Hércules na coleira cheirando a vizinhança toda. Ela pesquisava temas irritantemente intelectuais na internet, e eu me divertia com os seriados norte americanos na Sony. Certa vez, Raquel chegou a levar seu notebook com baterias reservas para um acampamento sem energia elétrica que fomos com uns amigos. Enquanto eu contava piada e imitava o presidente em volta de uma fogueira, Raquel procurava sinal do modem pra conectar-se e terminar um trabalho. Esse acampamento me rendeu vários “nunca mais”.

Eu tolerava as diferenças, muitas vezes achava um porre suas conversas sobre o boom da indústria chinesa, mas se a fazia feliz, eu gostaria de fazer parte disso. Mas Raquel não pensava como eu, definitivamente não. E da pior forma ela resolveu por fim. Ela começou um relacionamento com esse seu “amigo” de turma, e tipicamente profissional, levou isso como um experimento, como na bolsa de valores, ela arriscou, então resolveu me comunicar. Diz ela que apenas levavam como um flerte e que não teria coragem de beijar outra pessoa estando comigo, se dizia incapaz de trair. Engoli a seco essa alegação esfarrapada, como se traição fosse algo meramente físico, e a única coisa mais que quis saber foi há quanto tempo essa “amizade” havia se arrastando. Ao me responder, seu rosto corou, entendi então que ela via traição com os mesmos olhos que eu e apenas alegou aquilo como autodefesa. Três meses.

Diante de Raquel, naquele momento, minha única reação foi o silêncio, uma única lágrima escorreu do meu olho esquerdo denunciando a dor da perda. Estávamos sentados em um banco de praça que ela tinha em seu quintal, levantei-me, pensei em voltar e beijá-la para despertá-la e fazê-la entender que eu era seu homem. Olhei para trás, e estampado claramente em seu rosto estava a marca da decisão de que nada mudaria o curso. Eu era seu passado. Uma fina agulha apontou contra meu peito.

No caminho liguei para meu amigo Matias, e como há tempo não fazia, o chamei para um chopp, não falei sobre o que ocorreu, não tinha o hábito de falar sobre mim sem antes avaliar a situação e me por na defensiva para negar meus erros.

Matias e eu lembramos alguns casos engraçados de nossa infância, então um sms chega dizendo: “o fim deve ser certo, nos falamos amanhã. Raquel”. Lembrei, então, de um quarto idioma que Raquel falava: a língua da insensibilidade. Menti para Matias dizendo que minha mãe me chamava, e fui embora. O caminho para casa pareceu distante, muito distante.

Achei que o tempo tivesse apagado essa história. Mas Raquel me ensinou que o tempo é um placebo, e placebo não gera efeito quando sabemos o que ele é.

Depois da tortura pessoal dessa lembrança, olhei para o teto e dormi involuntariamente. O sol que entrava pela janela da sala bateu no meu rosto e acordei. Hércules estava olhando para mim, não lia mais meus pensamentos, apenas pedia sua refeição. Cachorro guloso.

Mandei um torpedo para Clara: “bom dia Clara, hoje você escolhe o restaurante. Beijos.” Estava tentando tornar nossa relação em algo mútuo. Pensei em minha amizade com Clara, e de como ela cuidava de mim, e eu não retribuía essa atenção. Isso poderia me ensinar algo.


continua...

2 comentários:

  1. muito interessante...

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  2. "Hércules estava olhando para mim, não lia mais meus pensamentos, apenas pedia sua refeição. Cachorro guloso." kkkkkk...

    by Jason 13

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